❝...por que será que nos instantes dessa vida irreal chegamos a prender a respiração? Por quê? Qual o motivo, por que, como por efeito de um sortilégio inexplicável, o nosso pulso bate mais depressa, e as lágrimas afluem aos nossos olhos, as faces do sonhador ficam afogueadas e todo o seu ser parece dilatar-se num prazer arrebatador? Por que existem para ele noites inteiras em que passa mergulhado numa profunda alegria, numa felicidade, sem pensar em dormir nem por um momento? E quando a manhã volta a brilhar com róseos matizes nos vidros das janelas, e os primeiros alvores do dia penetram com sua luz indecisa e vaga no aposento, e o nosso sonhador, rendido e esgotado, se estende no leito e fica adormecido - por que terá ele então a impressão de que vai morrer de pura felicidade, com todo o seu espírito quase doentiamente comovido, e além de tudo isso, com uma dor penosa e doce no coração? 
É assim que nós nos iludimos e, como estranhos, julgamos involuntariamente que uma paixão verdadeira, física, comove nossa alma. Involuntariamente acreditamos que nossos sonhos incorpóreos há qualquer coisa de vivo e de palpável. Mas que ilusão! Suponhamos por exemplo que no peito do sonhador tenha despertado o amor com toda a sua dor inesgotável...
Viu-a ele alguma vez que não fosse nas obsessivas visões da sua fantasia?...❞


- fiódor dostoiévski: noites brancas -


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

não importa o tempo

votos